Quando a expectativa transforma um dia bom em estresse

Um dia cheio, tudo dando certo, mas com a sensação de dívida no fim. Expectativa é o que puxa você para cima. Previsão é o que cabe hoje. Quando as duas viram a mesma coisa, todo dia parece pouco.

Por Dr. Mauro GracitelliPublicado em 8 min de leitura

Fui dormir frustrado no fim de um dia que tinha sido muito bom. A agenda saiu como eu tinha planejado, os casos foram bons, não tive nenhum problema.

Demorei a entender de onde vinha aquilo, e não era nada do dia em si. Eu tinha feito tudo o que estava na agenda. Mas não tinha andado um passo no que eu queria de verdade.

E o que mais me incomoda nisso é que produtividade é justamente um dos temas que eu estudo. Leio sobre o assunto há anos, testei quase todos os métodos que existem, dou aula disso para outros médicos. Está tudo organizado, tudo anotado, tudo no lugar. E mesmo assim tem semana em que eu chego no domingo e o que eu queria mover continua onde estava.

Fui atrás de entender isso depois. Num experimento em Londres, pesquisadores acompanharam pessoas numa tarefa em que elas ganhavam prêmios, e perguntavam de tempos em tempos o quanto estavam felizes. A felicidade delas não acompanhou o tanto que ganharam. Acompanhou o que elas estavam prevendo e a diferença entre essa previsão e o que veio¹. A tarefa é simples e os prêmios são pequenos, mas o achado se repetiu depois num teste com mais de dezoito mil pessoas. Os autores não falam em dia de trabalho de ninguém. Mas eu li aquilo e lembrei na hora da noite anterior.

Quando eu planejo a minha agenda e as minhas tarefas do dia logo cedo, eu costumo colocar mais coisa do que cabe nas horas que eu tenho. Alguma coisa vai ficar de fora. Se for a tarefa da rotina e não urgente, ela espera, sem problema. O que me irrita é quando fica de fora justamente aquilo que me move para frente, os meus projetos mais intencionais. À noite eu comparo o dia com a conta errada que eu fiz de manhã, e o que fica é a sensação de ter trabalhado bem o dia inteiro em coisas que não eram as que eu queria.

E piora justamente quando você melhora

E acontece uma coisa que eu não esperava: a expectativa sobe junto com a capacidade. Quanto melhor você fica, mais passa a esperar de si mesmo, e o que ontem seria uma semana muito boa hoje vira o mínimo.

Em economia isso já foi estudado. Num levantamento com milhares de pessoas na Suíça, quanto maior era a renda de alguém, maior era também a renda que essa pessoa considerava necessária para viver. E quanto maior essa conta, menor a satisfação dela com a vida, num efeito de tamanho parecido com o ganho que a renda traz². Eu acho que vale para a nossa carreira também, mas isso já é opinião minha.

Com médicos aparece uma coisa que me chamou atenção. Num levantamento que comparou mais de três mil médicos americanos com trabalhadores de outras áreas, o item em que os médicos se destacaram foi este: “às vezes fico decepcionado com o que realizei e acho que deveria ter realizado mais”³. É uma pergunta só, dentro de um questionário grande, então sozinha ela não prova nada. Eu li essa frase duas vezes. Era eu.

Baixar a expectativa ou aumentar a capacidade

A saída óbvia seria baixar a expectativa. Se é ela que gera a frustração, é só passar a querer menos.

Eu não acho errado, acho que depende da fase. Tem momento em que diminuir a expectativa é a decisão certa, e não uma desistência. Um deles é quando faltam as ferramentas para chegar aonde você quer. O outro é quando o cansaço já está grande demais para fingir que só motivação vai te mover para frente. Nesses dois casos, a expectativa alta vira uma cobrança que você não tem como cumprir.

O problema é transformar isso em regime permanente. Não encontrei estudo que sustente isso, mas eu acho que quem passa tempo demais esperando pouco de si mesmo acaba entregando menos, e depois acha que aquele era o limite dele. Um risco de frustração no longo prazo, quando não dá mais tempo de agir.

A outra saída é lenta, e é a que funcionou comigo: em vez de diminuir a expectativa, aumentar a capacidade. Montar e treinar equipe, contratar serviço para o que você não deveria estar fazendo, aprender com quem tem a “pele em risco”, se organizar melhor, delegar, e hoje também treinar agentes de inteligência artificial. Nada disso acontece em uma semana, leva meses ou anos. É nisso que eu gasto a maior parte do meu tempo que não é consultório.

De todas, a que mais ajudou na minha organização pessoal foi a inteligência artificial. Hoje eu converso com a minha lista de tarefas, com a agenda, com o e-mail e, mais recentemente, até com o WhatsApp. Organizar deixou de tomar o tempo que tomava, é mais simples e prazeroso. Caíram barreiras. O meu dia continua cheio do mesmo jeito, mas hoje cabe mais coisa nele. Mas a minha expectativa subiu junto, porque passei a esperar mais de mim.

O que eu passei a fazer

O que me ajudou foi separar duas coisas que eu chamava pelo mesmo nome.

A expectativa é onde eu quero chegar, e ela precisa continuar alta, ainda mais para quem busca alta performance. Entenda expectativa como uma ambição saudável. A previsão é o quanto eu acho, de verdade, que dá para fazer nesta terça-feira, com esta agenda e este cansaço. É a calibragem das tarefas na prática. Isso não saiu de estudo nenhum. Saiu de tentativa e erro.

A minha expectativa é grande e continua grande: consultório de qualidade, cirurgias bem feitas, projetos educacionais em crescimento exponencial, e ainda chegar em casa a tempo para o esporte e para a família. Só que num dia com oito horas de agenda cheia isso não cabe, e se eu não fizer essa conta de manhã, à noite eu comparo o dia real com um dia que precisaria ter trinta horas.

Fazer essa separação dá trabalho. De manhã eu olho a agenda antes de decidir qualquer coisa, vejo quantas horas já estão comprometidas e escolho o que cabe no que sobra.

Uma vez por semana eu faço outra pergunta: o que fez essa semana render menos do que podia? E quando eu vejo que alguma coisa importante para mim não andou, eu mexo em três lugares. Reservo horário fixo na agenda para ela, quebro o que era grande demais em tarefas pequenas, e reduzo o número de projetos que eu deixo ativos ao mesmo tempo.

E uma vez por trimestre eu faço uma revisão maior, porque prever bem um dia que já está lotado ajuda pouco. Quando a conta não fecha semana após semana, o que precisa mudar é o desenho da rotina. Então eu monto a minha semana do zero, olhando para a agenda com visão de executivo, decidindo o que entra nela em vez de deixar a decisão dos outros, ou da inércia, fazer minha engenharia. Primeiro entram a família e a saúde, depois o consultório e meu projeto educacional. O resto disputa o espaço que sobrou, e é esse espaço que eu uso no planejamento de manhã.

É esse desenho que faz a minha semana parecer com o que eu digo que quero. Sem ele eu passo o ano fazendo o que apareceu, e o que eu digo que é importante nunca chega a ter horário.

E tem uma parte disso que rotina nenhuma resolve. Eu me cobro demais, e foi por isso que aquela frase do questionário me pegou. Isso aparece na cirurgia, aparece no consultório e aparece num domingo à noite olhando a semana que passou. Eu busco a perfeição em quase tudo o que eu faço, e ela me trouxe muita coisa boa, mas trouxe junto frustração e culpa. A agenda eu consigo ajustar de manhã. Aceitar a imperfeição é uma batalha que eu faço todo dia, e ainda estou nela.

O que mais me ajudou nessa parte veio de um livro do Dan Sullivan e do Benjamin Hardy, o 10x é mais fácil que 2x. Eles dizem que quem se compara com o ideal vive insatisfeito, porque o ideal se afasta na mesma velocidade em que a pessoa avança, e que quem se compara com o ponto de onde partiu enxerga progresso em quase qualquer semana⁴. Comigo funciona melhor quando eu olho para coisa concreta, o que existe hoje e não existia no ano passado.

Hoje, quando um dia bom termina com aquela sensação de dívida, eu faço duas perguntas antes de dormir. Uma é o que aquele dia comportava de verdade, com a agenda que ele tinha. A outra é o quanto eu andei desde o mês passado, em vez de o quanto falta para o ideal. Quase sempre é a segunda que muda o meu humor.

Eu continuo querendo tudo aquilo, e continuo me cobrando. A diferença é que hoje eu decido de manhã o que cabe no dia, e à noite eu comparo o dia com isso. Eu não passei a querer menos. Só parei de terminar todo dia bom devendo alguma coisa para mim mesmo.

Referências

  1. Rutledge RB, Skandali N, Dayan P, Dolan RJ. A computational and neural model of momentary subjective well-being. PNAS. 2014;111(33):12252-12257. (a felicidade momentânea numa tarefa de recompensa é explicada pela combinação das expectativas recentes com os erros de previsão que nascem delas, e não pelo ganho acumulado na tarefa; replicado em 18.420 participantes. Conferido na fonte em 15/08/2026)
  2. Stutzer A. The role of income aspirations in individual happiness. J Econ Behav Organ. 2004;54(1):89-109. (amostra suíça, mais de quatro mil observações; 10% a mais de renda eleva a aspiração de renda em 4,2%, e aspiração maior reduz a satisfação com a vida em magnitude comparável ao efeito positivo da renda. Desenho transversal, o autor é cauteloso quanto a causalidade. Conferido na fonte em 15/08/2026)
  3. Shanafelt TD, Dyrbye LN, Sinsky C, et al. Imposter Phenomenon in US Physicians Relative to the US Working Population. Mayo Clin Proc. 2022;97(11):1981-1993. (3.116 médicos responderam à escala; na análise multivariada, médicos endossaram maior intensidade que trabalhadores de outras áreas no item citado. Item isolado de escala validada, tratado no texto como sinal e não como prova. Conferido na fonte em 15/08/2026)
  4. Sullivan D, Hardy B. 10x Is Easier Than 2x. Hay House, 2023. (medir-se contra o ideal, que recua conforme se avança, contra medir-se a partir do ponto de partida; o conceito vem do livro irmão dos mesmos autores, The Gap and the Gain)

Ensaio relacionado no Substack: ler o texto longo

Assuntos: Expectativa, Planejamento do dia

Dr. Mauro Gracitelli, médico ortopedista, CRM-SP 113008, RQE 83938 (Ortopedia e Traumatologia)

Fundador da ALPESS

Publicado em .

Conteúdo educativo para profissionais. Escrito com apoio de IA e revisado pelo autor.

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